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Mamita

Eu poderia ter seu filho que não existe, Mamita
Embalá-lo num berço de possibilidades futuras
Tê-lo no colo sob seu olhar de rascunho
O filho é mais que o fruto. É reinício de vida, revolução nas paredes emboloradas, planta que se coloca na frente do jardim desalmado de terras escuras,
Embalar o Vesúvio. A lava toma a casa enche tudo de pontos coloridos, entorna de lúdico, leva peças que não se encaixam, e trombetas de som surdo,
Brinca com a vida, Mamita, crê em teus planos de meninos que crescerão como homens a raspar a cabeça no teto. Essa lágrima que emperra, o canto que se cala, não há choro, não há berro, não há ninho, não há novelo, não há bichano.
São essas paredes tristes que me contam, cada porta-retratos sem rosto, cada possibilidade que bate na porta de vidro, como o vento que arrasta,
A felicidade que arrasta, gela, não há nuvem, esboço de menino, seus cambitos magros e seus cabelos revoltos, arrastados com o vento,
Mamita.

  • Escrito originalmente para o blogue da Editora Reformatório

Não haverá

Não haverá margem para homens coesos até que morram numa barricada de ignorância

Até que a inteligência seja saqueada

Até que a estúpida burrice devore

Até que não sobre alma lúcida

Até que a massa cinzenta seque

Até que corpos apodreçam

Até que o país devaste

Não, não haverá,

Não haverá sinal de vida inteligente nesta terra de ódio nem talvez em mundo algum

  • Feito em especial para a revista Literatura & Fechadura

Um sentimento

Um acúmulo de vazio tomou-lhe de assalto enquanto atravessava o viaduto

O vazio nas sobras de concreto, nos dormentes ao relento, na civilização fendida

O vazio no campo envelhecido de pelos brancos que saltavam a puída regata

O vazio nos carros estáticos sem qualquer alma em desordenada condução

O vazio

  • Feito em especial para a Revista Literatura & Fechadura

Cada Crápula

Cada crápula um dia de apodrecimento numa ilha perdida no Pacífico

Cada crápula o rosto tóxico num parlamento já corroído

Cada crápula o demagógico colarinho de amebas vetustas que se nutrem

Cada crápula uma sentença de morte e de esquecimento

Cada crápula um enriquecimento de soda e estrume

Cáustico momento em que os crápulas tornaram-se maioria numa terra carcomida pelo sol ácido de uma manhã de eterno domingo

  • feito em especial para a Revista Literatura & Fechadura

Ele sabia que eram seus últimos dias sem dor. Que a partir dali a dor o acompanharia como um cão guia, um anjo amargo e lhe dizer coisas ruins.

a dor seria sua mulher, na saúde e na doença , na alegria e na tristeza, a dor na construção da vida, ganhos e perdas, frustrações e vitórias a serem celebradas a dois, um brinde, dor minha, o que seria da minha vã existência sem ti.

a dor ali, alma confidente em seus últimos dias, a dor lhe afagara o semblante, dirá “você foi um bom homem” e por fim te velará até seu adeus definitivo.

A dor emocionada com sua perda. Estará pronta para abrigar outro pobre corpo de outra pobre alma. Pois passamos, a dor fica,

hoje eu o vi de novo. eu estava dirigindo, ele passou por mim com toda sua euforia de vida, vestindo roupa preta, imitando ao mesmo tempo Pablo Neruda e Bono, ele tinha os cabelos longos, bebia uísque, falava coisas desconcertantes, ria de tudo, eu o vi de novo, tão menino, e com tanta certeza de que o mundo estava em sua mão, vestindo roupa preta, alguns sobretudos, ele passava pela calçada roubando cigarros de moças indefesas, ele dirigia carros velhos com portas que abriam sozinhas a cada curva, ele ouvia rock irlandês, se vestida de preto como os poetas de Valparaiso, eu o vi passar, magro e cheio de vida,

o jovem que um dia habitou em mim,

Eu choro a falta de amor
Eu choro pela distância
Eu choro pelo esquecimento
Eu choro pelos que não me chamaram
Eu choro pelos que não me chamaram

Eu choro pelo ódio
Eu choro pela intolerância
Eu choro pela ignorância
Eu choro pelo fascismo
Eu choro pela ameaça à arte
Eu choro pela ameaça à liberdade

Eu choro por um país que não existe mais
Eu choro por um país que não existe mais

Viveu um ano de atum. Virou um homem lindo, casou, e te teve um filho chamado Namor.

_quero agradecer a Nossa Senhora e ao Gomes da Costa pela graça alcançada.

Você pode rezar toda noite para o Tylenol. Já há mais variações de Tylenol do que terços . Escolhe o Tylenol DC quem sabe depois de Cristo você encontre a luz quem sabe te tire um si bemol.