BLOGANVILE

_ o senhor tem um tempinho?
_ eu não quero nada
_ é que o senhor frequenta essa livraria há 35 anos
_ eu não quero nada
_ comprou aqui algumas vezes, mas queríamos te dar um presente.
_ eu não quero nada.
_ o senhor pode escolher entre uma lapiseira ou o novo livro de Augusto Cury
_ eu não quero nada
_ como o senhor se chama?
_ eu não quero nada

_o senhor é aquele escritor famoso?
_ eu não tenho nada a dizer
_ não, talvez eu tenha te visto na tevê.
_ eu não tenho nada a dizer.
_ fez algum filme ou novela?
_ eu não tenho nada a dizer.
_ pode tirar uma selfie comigo?
_ eu não tenho nada a dizer.
_ talvez eu o tenha visto no bairro. Conhece a Carminha?
_ eu não tenho nada a dizer.

cães-servadores
bradam selvagens nas ruas
pela família pela tradição
propagam o ódio
reverberam a exclusão

cães-ceifadores
plantam o mal que os
acolherá na lavoura
comerão a própria língua
não terão o paraíso que almejam
nem o mundo perfeito

morrerão por si
abraçados à indiferença
terão o pó e a cinza
quem um dia lhes saiu
pela boca e a narina

cães-perpetuadores
da ignorância
e da ofensa
terão enfim o destino
que pediram

abraçados ao ódio
contaminados pela
própria raiva
cairão por si

mordidos ao
próprio rabo
terão a tripa
ao pescoço

carniça
podres de si
apodrecidos
como animais
abandonados

em um vale de
esquecimento
e merda.

São homens mulheres crianças
Custam pouco dinheiro, uma bagatela.
São úteis para afazeres domésticos
Podem ser domesticados e presos como animais, criados nos fundos, como animais, alimentados com qualquer resto, como animais
Podem ser submetidos à força bruta, a tarefas ingratas, a serviços sexuais, afinal são homens, mulheres e crianças, custam pouco dinheiro, uma bagatela.
estão expostos na ruas, como animais, podem ser vendidos aos bocados, como animais, podem ser levados amarrados, como animais.
Ali, nas ruas de um país chamado Líbia, se são negros ou não são negros, são homens mulheres e crianças, ali nas ruas de um país chamado Líbia, é a humanidade que sucumbe, apodrece como animal morto, fenece, se putrefaz, não resta nem os ossos, carniça,

não resta mais

A beleza das mulheres em marcha
A beleza das mulheres que não se derruba
Do guarda estúpido que tombou a moça e agarrou como quem doma um animal: tu não sabes o engano de tua farda e o horror de tua missão
A beleza das mulheres que toma a avenida, aflora, grita, berra, e derruba homens estúpidos.
A beleza do ato contra o horror.
Quando eu crescer quero ser mulher.
Brava mulher como todas elas, todas em uma, beleza da luta contra este mundo fálico e brutal.
Tomem, gritem, derrubem.
Sejamos com vocês mulher.
Para calar o mundo.

11h23

-O seu trabalho é ficar aqui na esquina com a camisa da seta
– Mas pra que?
– Pras pessoas saberem a direção do estande promocional
– Mas pra que?
– Você vai trabalhar por 12 horas, não pode sair da esquina, não pode sentar, não pode ficar de costas, não pode fumar, tem que aguentar chuva.
– Mas pra que?
– Você tem 20 minutos por dia para ir ao banheiro. Pode dividir 10 de dia e 10 de tarde, de noite tem que aguentar.
– Mas pra que?
– Você tem 15 minutos de almoço, pode trazer marmita, mas tem que esconder no mato.
– Mas pra que?
– Teu salário é 250 com bônus no final do młs se fez tudo direito. O bônus inicial é de 25 e pode chegar a 35.
– Mas pra que

11h23

Escrever é catar desv?o Cada traste que sobra Cata cada qual um corpo Esconde bem escondido Na lembrança tece Tecido na tecitura Assim às vezes Feérico Assim às vezes Galgando carruagens Assim às vezes Brutal Pau que fere Ranca pedaço não há borda PratoComido a Vidro

11h22

Você se sente estranho quando precisa de um telefone fixo e não mais existem telefones fixos,
você se sente estranho quando vai à loja e existem muitos telefones fixos à venda
você se sente estranho quando a moça da loja oferece garantia estendida, quando na verdade em poucos anos não haverá mais em definitivo telefones fixos e talvez nem aquela loja exista mais,
você se sente estranho quando não sabe mais mexer no telefone, embora tenha nascido numa realidade de telefone fixos
(pausa para a lembrança do frio na barriga antes de ligar pra moça no tempo do telefone fixo quando o pai ou a mãe podiam atender)
você se sente estranho lendo o manual do telefone fixo
e se sente mais estranho ainda ao notar que

não consegue enxergar nada

do que está escrito ali

11h21

Eu quero que você descubra, minha face, claro enigma, rito de passagem, você de partida, malas e livros, é o meu rosto que se despede, e nele que se pode ver esses pastos sem volta, os lugarejos mais longínquos, casas sem janela, o choro que colhe flores magníficas, em cada pedaço de minha pele, você toca com a mão, este labirinto, um vaso de mundos, correntezas sem dor

por onde um dia você belamente

andou.

00h18

Na calada eu sou um só musculo. Tensa carne eivada de querer. Eu sou uma só compulsão.

Ritmo de alavanca, o resplandescer do pau. Aquilo que parece doce e jorra.

Carinho do líquido branco sobre a pele.

Eu sou, eu sou só, porrra.

#masturbação?

00h17